terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O PESO QUE A GENTE LEVA

   O perigo da viagem mora nas malas.Elas podem nos impedir de apreciar a beleza que nos espera.
  Minhas malas são sempre superiores às minhas necessidades.É por isso que minhas partidas e chegadas são mais penosas do que deviam.Ando pensando sobre as malas que levamos...Elas são expressões dos nossos medos.
  Elas representam nossas inseguranças.Tudo o que você leva está diretamente ligado ao modo de necessitar.Roupas diversas; de frio, de calor - o clima pode mudar a qualquer momento!
  Remédios, segredos, livros, chinelos, guarda chuva - e se chover?
  O fato é que elas representam nossa inseguranças.Digo por mim.Sempre que saio de casa levo comigo a pretensão de deslocar o meu mundo.Tenho medo do que vou enfrentar.Quero fazer caber no pequeno espaço a totalidade dos meus significados.As justificativas são racionais.
  Correspondem às regras do bom senso, preocupações naturais para quem não gosta de viver privações.
  Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas.Excedem aos tamanhos permitidos.Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado?
  Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada.É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências.E nisso mora o encanto da viagem.
  Viajar é descobrir o mundo que não temos.
  É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence.E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar:
  "Bom é partir.Bom mesmo é poder voltar!"
  Ele tinha razão.A partida nos abre os olhos para o que deixamos.
  A distância nos permite mensurar os espaços deixados.
  Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo.
  Ao ver o mundo que não é meu eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território.
  Vida e viagens seguem as mesmas regras.Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver.Por isso é tão importante partir.
  Sair na direção das realidades que nos ausentam.
  Andar na direção do outro é também é  fazer uma viagem.Mas  não leve muita coisa.Não tenha medo das ausências que sentirá.
  Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu.
  Não leve os seus pesos.
  Eles não lhe permitirão encontrar o outro.
  Viaje leve, leve, bem leve.
  MAS SE LEVE.
   Padre Fábio de Melo

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